Armadilha
– Eu mato gente por dinheiro.
Alex olhou para o companheiro de bar, esperando ver algum sinal de que aquilo fosse uma brincadeira, mas não houve nenhum.
O outro continuou olhando sério para ele.
- Tipo assassino de aluguel? - Perguntou Alex, tentando manter o ar de deboche.
- Não, não… – Respondeu o outro, rindo – Nada assim tão requintado. Sou pago para simular um assalto e matar um cara, pelo menos na maioria das vezes.
- E qual é o seu preço?
- O padrão é cinco mil reais, quando a pessoa é fácil de se achar nas ruas e o contratante conhece bem a rotina dela. Se eu tiver que gastar tempo investigando, cobro mais caro.
- Então esse é o preço de uma vida?
-Pode-se dizer que é. Sente-se mais poderoso agora?
- Se eu tivesse essa grana, talvez – Respondeu Alex, rindo.
Alex era jornalista. Já entrevistara gente suficiente para saber quando alguém está inventando. E, para sua surpresa, este não parecia ser o caso. A frieza com a qual falava fazia os cabelos da sua nuca arrepiarem.
- Como você faz para não te pegarem?
- As balas têm números de série da polícia militar. Eu pago caro nelas, mas vale a pena, porque não dá pra rastrear. E cada vez eu uso uma arma diferente, para que um caso não pareça ter relação com o outro. Tenho três e alterno entre elas.
- Assim em cada caso acham um tipo de bala.
- Isso aí.
Por mais que pudesse ser brincadeira, na cabeça de Alex, aquilo fazia sentido. Não o conhecia bem. Moravam no mesmo bairro desde crianças, e por isso tinham amigos em comum, de forma que às vezes se encontravam, sentados na mesma mesa de um bar. Era meio fechado, e nunca comentava nada sobre o que fazia para viver. Quando alguém perguntava, ele respondia que não tinha nada fixo. “Vivo fazendo bicos”, dizia ele. Mas sempre insistia em pagar toda a conta do bar.
Isso poderia render alguns trocados para o jornalista, se publicasse um conto, por isso tentou não perder o foco.
- Como é que você começou isso tudo? – Perguntou Alex – Quer dizer, ninguém acorda um dia e diz: “Acho que vou virar um assassino de aluguel”, não é?
- Matei a primeira vez por vingança. O cara tinha me ferrado legal. Um velho me viu fazer aquilo e me seguiu. Em vez de me dedurar, disse que me pagaria bem para fazer esse tipo de coisa para ele. Desde então, é de quem vem a maioria dos meus pedidos.
- Tá, tá… – Disse Alex, tentando esconder o nervosismo na voz. Algo estava mal contado nessa parte - Agora vem cá, suponhamos que eu acredite em tudo isso que você acabou de me dizer. Porque você me contaria isso tudo? A gente mal se conhece…
- Às vezes eu acho que preciso desabafar com alguém que eu tenha a certeza de que jamais vai comentar nada disso com ninguém.
Tinha alguma coisa errada naquele tom de voz. Ele olhou para Alex de uma maneira estranha. Alex sentiu a adrenalina correr em seu corpo, mas não sabia o porquê. Resolveu então fazer a pergunta, mesmo que algo lhe dissesse que iria se arrepender.
- E como você pode ter certeza de que eu não vou comentar com ninguém?
O assassino sorriu e colocou a mão dentro da jaqueta, como se já estivesse esperando esta pergunta.
- Lembra do velho de quem te falei? Ele ficou muito puto com a sua última matéria sobre os desvios de verba.
A eletricidade tomou conta do corpo de Alex, e tudo aconteceu rápido demais. Enquanto o assassino movimentava o braço para tirar a mão da jaqueta, Alex se levantou da cadeira e fechou a mão em volta de uma garrafa. Jogou-a em direção ao rosto dele, sem muita força mais para distrair. O assassino se protegeu com o outro braço, e isso deu a Alex uma fração de segundo para tentar se salvar. O mundo rodava em câmera lenta. O jornalista pegou uma segunda garrafa vazia e quebrou-a na cabeça do outro.
Sem ver o que havia acontecido ao assassino, correu para fora do bar, como nunca havia pensado que pudesse correr.
O céu ainda é azul
Hoje eu vi um cego
Pedindo esmolas na estação
Quem é mais cego,
Aquele que não vê e pede
Ou aquele que finge não ver e não dá?
O homem mata, finge,
rouba e trapaceia
sua hipocrisia é tão séria
quanto a bomba que destruiu as cidades.
Todos estão tão condenados
que deixaram de ver a verdade,
tão cegos quanto aquele
mendigo e sua latinha
andando na ponte sobre a avenida,
subi no parapeito e vi
multidões de hipócritas
dentro de seus importados
tão satisfeitos de si mesmos,
alheios ao mundo e a tudo
sem se importar com os que nao tiveram
as mesmas oportunidades.
neste instante, desisti de tudo,
da vida, da terra e da estupida e
assim chamada humanidade.
flexionei os joelhos
e olhei para o alto
pela última vez
parei e vi.
Vi, que apesar do homem
matar, trair e destruir
o proprio últero que os gerou.
As nuvens ainda eram brancas e
Apesar de tudo,
o ceu ainda era azul.
Desci do parapeito e acendi
o último cigarro do maço.
Eu ja havia cometido meu suicidio
naquele instante e nao importava
se morria ou vivia. Tudo iria continuar.
Se os homens não se importam comigo,
por que me importar com eles?
Desisti de tentar.
A vida e a morte são inúteis
Vou me divertir enquanto eles
matam seus irmaos e explodem sua mãe.
Fodam-se os homens e seus ideais idiotas.
Já estamos todos condenados.
Vou aproveitar e fazer a festa
enquanto ainda tenho tempo.
Herói
Ela apertava o passo, enquanto a garoa a fazia estremecer de frio. Não gostava de andar àquela hora da noite pelas ruas escuras do seu bairro, mas perdera o último ônibus para casa.
Olhava nervosa para os lados quando qualquer ruído, por menor que fosse, fazia seu medo parecer eletricidade correndo pela pele. Começou a andar ainda mais rápido, apesar dos saltos atrapalharem, quando a chuva começou a cair de verdade. Estava quase começando a amaldiçoar sua vaidade quando uma voz ecoou pelos becos:
- Não está um pouco tarde para passear, gatinha?
Havia um homem mal-vestido a poucos passos, encostado em uma das paredes do beco. Quando ela olhou para sua cintura, seu coração parecia querer parar – enfiado na calça, havia uma arma. Pensou em dar meia-volta e correr, mas um par de mãos fortes a agarrou pelos braços, vindas de trás, antes que esboçasse qualquer reação.
Tentou gritar, mas sua garganta perecia ter fechado, e sua cabeça começava a dar voltas. Foi empurrada em uma parede e separada de sua bolsa, quando percebera que mais um homem estava vindo se juntar aos outros dois.
- Trinta mangos e um celular, Edson.
- A coisa está fraca hoje, Miguel. Vamos embora.
A resposta do terceiro quase a fez desmaiar:
-Não. Esta coisinha é bonitinha demais pra eu deixar ir embora assim.
- Hmmm… Está bem. Agente segura, mas seja rápido, Piolho. E você, nem pense em gritar.
- Disse, apontando para a arma.
Ela se agarrou à parede como se esta pudesse protegê-la. Pensou com raiva em todas as oportunidades que desperdiçou e em como foi difícil chegar aos seus poucos dezoito anos sem nunca ter estado com um homem.
A chuva começou a cair pesadamente, quando os três se aproximaram o suficiente para agarrá-la, o tal piolho com um sorriso horrível estampado no rosto. Ela olhou para cima, clamando pela piedade de um deus no qual sequer havia realmente acreditado a vida toda. Foi quando viu uma silhueta subitamente iluminada por um raio que caiu próximo.
Empoleirado em um muro do beco, estava um homem forte, os cabelos negros e longos esvoaçando com o forte vento, totalmente indiferente à tempestade que se abatia. Sua pele era branca como a neve, e parecia refletir a pouca luminosidade que havia na rua, tornando a visão surreal o bastante para parecer um sonho. Se havia algum deus ali, com certeza era aquele.
Um imponente Deus das Trevas, vigiando seus domínios.
Quando uma das alças de seu vestido foi rasgada, o homem saltou do muro, vindo a cair com um de seus pés na cabeça de um dos assaltantes, que tombou desacordado. Quando o tal Piolho se virou bruscamente um par de socos fortes impediram qualquer tipo de reação. O terceiro homem sacou então a arma que trazia na cintura e disparou duas vezes, mirando na altura do peito daquele anjo da guarda. Ela gritou. Mas ele não caiu.
O autor do disparo olhou petrificado por alguns instantes, e então saiu correndo, aterrorizado.
Ela observou se salvador virar-se lentamente e fitá-la com um par de olhos negros, que pareciam conhecer seus mais íntimos pensamentos. Percebeu que estava chorando e que suas lágrimas se misturavam às gotas da violenta chuva.
Ele a abraçou.
- Quieta, quieta. Já passou. Tudo vai ficar bem agora.
Ela pensou em sua mãe, que provavelmente a esperava, aflita, na sala de estar de sua casa. Lembrou-se de todos os bons momentos que passara com ela durante sua infância. Lembrou-se das amigas que a acompanharam desde o primário até o colegial. Do seu primeiro beijo. Do dia em que descobrira que havia passado no vestibular. Na prova que acabara de fazer na faculdade.
Sentiu dois caninos agudos perfurando-lhe a tenra carne do pescoço. Uma estranha volúpia a fez relaxar subitamente e uma onda de calor invadiu seu corpo. Tudo ia realmente ficar bem agora. Não sentia mais o frio ou a chuva.
Esta noite dormiria nas estrelas.
Será Justo?
Seu sorriso seria capaz de derreter
a geleira do mais negro coração.
Seus olhos seriam capazes de ver
pensamentos que suspeitava serem meus.
Jogo-me aos seus pes, submisso.
Sem ser capaz de dizer uma unica palavra
e, ainda assim, voce continua distante de mim…
Inferno é saber que talvez nunca te veja.
Que nunca ouça o som da sua voz.
Paraiso é saber que seria capaz de matar
ou morrer por isso.