Herói
Ela apertava o passo, enquanto a garoa a fazia estremecer de frio. Não gostava de andar àquela hora da noite pelas ruas escuras do seu bairro, mas perdera o último ônibus para casa.
Olhava nervosa para os lados quando qualquer ruído, por menor que fosse, fazia seu medo parecer eletricidade correndo pela pele. Começou a andar ainda mais rápido, apesar dos saltos atrapalharem, quando a chuva começou a cair de verdade. Estava quase começando a amaldiçoar sua vaidade quando uma voz ecoou pelos becos:
- Não está um pouco tarde para passear, gatinha?
Havia um homem mal-vestido a poucos passos, encostado em uma das paredes do beco. Quando ela olhou para sua cintura, seu coração parecia querer parar – enfiado na calça, havia uma arma. Pensou em dar meia-volta e correr, mas um par de mãos fortes a agarrou pelos braços, vindas de trás, antes que esboçasse qualquer reação.
Tentou gritar, mas sua garganta perecia ter fechado, e sua cabeça começava a dar voltas. Foi empurrada em uma parede e separada de sua bolsa, quando percebera que mais um homem estava vindo se juntar aos outros dois.
- Trinta mangos e um celular, Edson.
- A coisa está fraca hoje, Miguel. Vamos embora.
A resposta do terceiro quase a fez desmaiar:
-Não. Esta coisinha é bonitinha demais pra eu deixar ir embora assim.
- Hmmm… Está bem. Agente segura, mas seja rápido, Piolho. E você, nem pense em gritar.
- Disse, apontando para a arma.
Ela se agarrou à parede como se esta pudesse protegê-la. Pensou com raiva em todas as oportunidades que desperdiçou e em como foi difícil chegar aos seus poucos dezoito anos sem nunca ter estado com um homem.
A chuva começou a cair pesadamente, quando os três se aproximaram o suficiente para agarrá-la, o tal piolho com um sorriso horrível estampado no rosto. Ela olhou para cima, clamando pela piedade de um deus no qual sequer havia realmente acreditado a vida toda. Foi quando viu uma silhueta subitamente iluminada por um raio que caiu próximo.
Empoleirado em um muro do beco, estava um homem forte, os cabelos negros e longos esvoaçando com o forte vento, totalmente indiferente à tempestade que se abatia. Sua pele era branca como a neve, e parecia refletir a pouca luminosidade que havia na rua, tornando a visão surreal o bastante para parecer um sonho. Se havia algum deus ali, com certeza era aquele.
Um imponente Deus das Trevas, vigiando seus domínios.
Quando uma das alças de seu vestido foi rasgada, o homem saltou do muro, vindo a cair com um de seus pés na cabeça de um dos assaltantes, que tombou desacordado. Quando o tal Piolho se virou bruscamente um par de socos fortes impediram qualquer tipo de reação. O terceiro homem sacou então a arma que trazia na cintura e disparou duas vezes, mirando na altura do peito daquele anjo da guarda. Ela gritou. Mas ele não caiu.
O autor do disparo olhou petrificado por alguns instantes, e então saiu correndo, aterrorizado.
Ela observou se salvador virar-se lentamente e fitá-la com um par de olhos negros, que pareciam conhecer seus mais íntimos pensamentos. Percebeu que estava chorando e que suas lágrimas se misturavam às gotas da violenta chuva.
Ele a abraçou.
- Quieta, quieta. Já passou. Tudo vai ficar bem agora.
Ela pensou em sua mãe, que provavelmente a esperava, aflita, na sala de estar de sua casa. Lembrou-se de todos os bons momentos que passara com ela durante sua infância. Lembrou-se das amigas que a acompanharam desde o primário até o colegial. Do seu primeiro beijo. Do dia em que descobrira que havia passado no vestibular. Na prova que acabara de fazer na faculdade.
Sentiu dois caninos agudos perfurando-lhe a tenra carne do pescoço. Uma estranha volúpia a fez relaxar subitamente e uma onda de calor invadiu seu corpo. Tudo ia realmente ficar bem agora. Não sentia mais o frio ou a chuva.
Esta noite dormiria nas estrelas.